Como ler poesia

Sempre fui impressionada com a nossa capacidade de ler, esse superpoder de olhar pra palavra e simplesmente entrar. Uma vez aprendido não há saída ou retorno, é impossível não ler. Você olha e pronto, pode testar se quiser, olhando e tentando não decodificar que seja a palavra diante do olho. Impossibilidade. Você leu. 

Quando escolhi cursar letras foi por paixão, e dessa jornada fui entrando no reino fonético, na teia da sintaxe e vivendo o ritmo social da linguística. Mas como foi que cheguei à poesia? Como sair dela? Como alguém consegue se retirar ileso desse tipo de leitura? 

Poesia é coisa de iniciados, que repetem em voz alta entre amigos e simpatizantes, conhecidos e familiares, uns entendem outros escutam, todos talvez sintam. O que me apavora e sempre deixou perdida é quando, de cara, um jovem ou idoso, com estudos formais ou informais, diz que não sabe ler poesia, que não entende poesia, que acha poesia difícil ou impossível, coisa de gente muito lida. Esmoreço, fico tímida, não tenho resposta e no máximo sai um “você precisa ler” e a pessoa me responde “mas eu li e não entendi”.

Vencida, enveredo pelos caminhos da valorização do entendimento. Esse entendimento cartesiano, talvez das cadeiras da academia, fixado nos postulados da razão. E caminho também nas estradas subjetivas, desafios de letras e sons e linguagens, desapegada de entender, pois tem muito mais coisas que não entendo, coisas que não entendemos nessa vida, não compreendidas com uma explicação inteira, mas talvez elucidadas por explicações convencidas ou saltos de fé. 

O que há depois do morrer, o existir, o sonhar, para que serve o soluço, o ronron dos felinos, a matéria de que é feito o universo, como surgiu a vida, do que é feita a gravidade, o que tem dentro de um buraco negro, o que há no fundo do oceano: temos respostas convictas para algumas dessas provocações, mas de fato sobre nada disso se tem entendimento, e quando algo é explicado vem em partes, num cálculo ainda sem respostas. Em algum momento surge a explicação que me convence, aquele pulo dentro do vazio, o famoso salto de fé. E na experiência vou construindo respostas, podendo dizer por exemplo que a vida surgiu de um sopro e o universo veio de um verbo no princípio. Isso me basta, mesmo quando eu não entendo como pretendia inicialmente, no entanto posso sentir. Verdade. Verivérbio.

Existe uma confiança na explicação pelo sentido, na percepção pela palavra correta, exata. O que nos afasta da leitura da poesia é, em larga medida, exatamente isso “o poema transcende a linguagem”, nos diz Octavio Paz. Para acalmar a ansiedade de não saber exatamente o que é aquilo, o ser humano classifica, mas classificar não significa entender, e pior, não se aproxima da experiência. Cito novamente Paz, trazendo para perto a ânsia demasiado humana de saber-se num solo firme: “o mundo do homem é o mundo do sentido. Ele tolera a ambiguidade, a contradição, a loucura ou o embuste, não a carência de sentido. O próprio silêncio é povoado de signos.”

Mesmo na experiência tida como a mais pura estamos dentro da linguagem, é ela que nos permite avançar nas explicações, colonizando territórios de discurso numa empreitada complexa e recheada de contradições. Volto ao superpoder de ler, de decodificar, de explicar o que leu o que viu e sentiu naquela vivência. A linguagem é a nossa realidade. As crises da humanidade se consolidam enquanto crises do sentido, uma crítica da linguagem, disputa de território narrativo. Estamos aqui e agora tentando remendar o sentido rasgado da palavra democracia, por exemplo. “Não podemos escapar da linguagem.”

Mas e a poesia?

Nunca saímos dela, de fato. Enquanto operação alquímica que apresenta a realidade, precisamos experienciar cada pedaço de poesia. A leitura é somente a porta, e dessa porta rabiscamos a realidade que conhecemos com a linguagem, nos permitimos o paradoxo, aproximar ideias difusas, narrar o impreciso, numa condensação da língua que pede humildade na hora da leitura. Entender a poesia é superestimado. Aquele incômodo do não entendimento se torna valioso, talvez bem mais que perceber o sentido de qualquer mensagem num texto.

O verbo pega delírio, como bem disse Manoel de Barros, e precisamos pegar delírio também na leitura de poesias. Espero ter decepcionado os mais ávidos por um manual, tal conduta não se sustenta no universo da poética. Octavio Paz nos ensina ainda que “o poema nos faz lembrar o que esquecemos: o que somos realmente” e ainda que “o dizer poético diz o indizível.” Daí que não há saber possível dentro do meu repertório limitado pelo pensamento racional, precisaria muito mais de uma pronúncia mágica, receita metamórfica, dentro de uma melodia vibratória que nos permita viajar pelas realidades.