O que há no meio, entre eu e meu texto favorito do Cortázar.

- Cortázar fala de um mezzo del camin em que as duas aberturas do mundo se encontram: eu menina, eu adulta, sendo que a adulta sempre esteve ali na menina e a menina, quando virou adulta, trouxe consigo a criança. Parece um joguete escorregadio que gera uma pausa, quase que experimentada fisicamente, coisa de corpo, coisa de palavra, ambas se misturando atordoadas, inevitáveis. Paralaxe. Concordo e assino com meu nome invisível ao lado do nome concreto de Julio, quando, ao trazer esse encontro de mundos e realidades, ele promove o turbilhonamento de existências completas transpostas em uma vida só. Nunca estou aqui por completo, nunca estarei lá por completo. A vida de quem escreve é sempre um perder-se no meio de uma encruzilhada.O texto em questão é típico de um Cortázar para iniciados, de um escritor, mais leitor que escritor nesta publicação em especial, que pode ser escarafunchado por leitores insaciáveis que, para além da obra que o autor quis mostrar, decidem por vasculhar móveis, baús, malas, caixas de correios e às vezes até os exames laboratoriais daquela figura. Seu corpo morto não basta e seu corpo vivo não é, resta o texto drenado de sua carne. O título é “Do sentimento de não estar totalmente”, conversa que consta no Tomo I do “A volta ao dia em 80 mundos”, de 1967, uma publicação apinhada de citações, imagens, músicas e gatos.Em muitos momentos precisei retornar ao meio do caminho sobre o qual fala Cortázar, por saber dessa dupla jornada de quem habita dois mundos ao mesmo tempo, no interstício, escrevendo e vivendo como quem faz uma coisa só, que é o que está aí para ser feito. Compartilho tangencialmente dessa realidade. E de outras. E do estranhamento que leva à poesia.
- É curioso encontrar em um escritor que nem existe na minha realidade (nunca sonhei com ele, logo se trata de uma ideia, não de um ser) a descrição mais aproximada de uma parcela da maneira que experimento a presença nesses mundos. É como acordar do lado errado do sonho, todos os dias, perguntando se aquilo que aperta meu crânio é o peso da atmosfera, a desidratação da noite no deserto ou a incongruência de enxergar o prisma das vidas possíveis.Daí eu estar enfiando a cara nos rasgos do véu que põe ordem ao caos iniciático da existência, espio de forma inconveniente, pois não há nada mais insuportável ao humano que a perda do sentido, e o sentido é somente o véu da organização inventada, um tecido que coloca o caos em uma forma arbitrária e ingênua. Coisas do eu criança quando ele assina o contrato social.Por vezes minha versão adulta necessita de rasgar o contrato para conseguir fazer e ver e escrever aquilo que está além de, ao lado, próximo, através e embaixo de. E sempre volto para contar da visão além-véu. Tem sido uma vida solitária, cheia de confissões ao vazio, coisas incompreensíveis escritas e desenhadas nas margens dos poemas que venho publicando. Penso que funcione assim com todos: histéricas, com transtornos dissociativos, artistas e os contemplados com desordens neurológicas funcionais (que é quando o corpo simplesmente desaprende, esquece como andar ou como respirar ou como ver, e volta a uma resposta primitiva e honesta, a mais direta possível). Todos esses elencados podem ver entre trama desse véu frágil, um véu de fé e de funções cerebrais de previsão de realidade e reação, e voltam, alguns adoecidos, todos desordenados, poucos escrevem.Algumas figuras, concorda Cortázar, acabam conseguindo digerir melhor esse estranhamento e a digressão, outros escrevem poemas, que mesmo quando não são poesia, acabam sendo confundidos e isso torna tudo as mesmas coisas. Essas coisas de poesia. Se chamam um joguete de poema, se tratam a publicidade como poesia, assim seja feita a vossa vontade leitora. Paciência. (E passividade?)Ainda mais estranhamento tenho evocado daqui de fora e de dentro. Deslocada dessa parcela da possível realidade que apreendemos para poder me sublimar na literatura de tempos em tempos. Foi este o curso do rio da minha vida, rio ao qual chamo de espírito, meu espírito de rio, líquida.
- Dia desses, num evento literário, fui qualificada como disruptiva, revoltada, subversiva e outros adjetivos semelhantes. Olhei para os meus pés e ri.
- Ouvi muitas vezes, na intimidade familiar, alguém pedir “sai do meu meio”, quando aquele outro bastante folgado entrava na frente da televisão. De todas as maneiras de expulsar essa pessoa, pedir para sair do meio é uma forma bastante elegante e poética. É como se entre o espectador e a televisão tivesse uma energia que une os corpos, num objeto maciço, pedra unificada, órgãos, veias, nervos. Temos que sair do meio desse corpo que se divide com a nossa presença. Meio é entre. Meio é dentro.Não sei se pediria para que saísse alguém do meu meio. Essa forma de vida mezzo del camin me torna um ser que repele e atrai pela mesma razão: aquilo que trago comigo daquele lado do véu, o vazamento. E é um ermo. A vida da literatura é um ermo.Tudo o que amei, amei sozinha.
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